Ativos globais tiveram ligeira alta em julho: ações globais +1%, títulos de dívida corporativa “high yield” +0,5%; commodities +0,8% e bitcoin +8%. Por outro lado, as taxas de dez anos do Tesouro americano subiram de 4,23% para 4,38%, alta repetida pelas outras principais economias, e isso pesou sobre títulos públicos e dívida corporativa “high grade”, que fecharam estáveis ou com pequena queda. Os REITS, fundos imobiliários globais, caíram 0,7%.
O dólar recuperou uma parte das perdas desde o início do ano e subiu 3,2% contra as moedas pares e 2,3% contra as emergentes, um movimento bastante influenciado pela desvalorização do euro após a negociação de tarifas entre Estados Unidos e Europa.
A inflação americana, que alimenta as taxas de juros de lá e causa ondas de choque mundiais, não está tão desancorada como se temeu após o início das tarifas de Trump, mas tampouco está sob controle: o núcleo (ex alimentos e energia) chegou a 2,9% nos doze meses findos em junho e o índice implícito para os próximos 2 anos subiu de 2,45% para 2,63% no mês. Por isso, os investidores têm postergado as esperanças de cortes de juros pelo FED.
A rotação mundial de ativos não se manifestou em julho. Apesar de as moedas emergentes terem se saído melhor do que o euro ou a libra, ações de emergentes ex-China subiram 0,8%, menos que as congêneres das economias centrais. O movimento particular do Brasil, com forte desvalorização da moeda e queda das ações, pesou sobre o grupo.
No Brasil, o sonho do Centro com a “terceira via” nas eleições de 2026 dissipou-se rapidamente com as últimas manobras da família Bolsonaro. Mais do que receio das tarifas punitivas (que, consistentes com a lógica da presidência Trump até agora, não se materializaram como previsto) e outras sanções, a retração dos investidores se deveu ao ressurgimento do cenário eleitoral polarizado, dessa vez com ambos os polos hostis à moderação e também à “Faria Lima”.
O real caiu 3,1% contra o dólar, o Ibovespa caiu 4,2% e o índice IFIX de fundos imobiliários perdeu 1,4%. As taxas das NTNBs de dez anos subiram de 7,06% para 7,44%, anulando toda a lenta melhora que vinha se processando desde março; o IMA-B caiu 0,8%.
As taxas de juros nominais para janeiro de 2027 subiram de 14,09% para 14,35%. As projeções de inflação para os próximos doze meses caíram de 4,68% para 4,44% na pesquisa FOCUS e subiram de 4,1% para 4,15% nos preços implícitos de mercado. A pesquisa FOCUS também registrou queda da projeção para o IPCA de 2025, de 5,20% para 5,09%. O IGPM teve mais uma deflação em julho e o acumulado dos últimos doze meses é agora apenas 2,96%.
Apesar do choque e espanto ao se perceber sob a alça de mira da Administração Trump, o Brasil perdeu apenas parte dos ganhos obtidos nos ano: o Ibovespa ainda está subindo 21% em dólares e não quebrou o suporte dos 130.000 pontos; o real ainda está 9% mais forte; as projeções para o PIB 2025 feitas mesmo após as sanções ainda apontam para um crescimento de 2,2%; a inflação parece contida e, por muito que se critique o quadro fiscal, o resultado “abaixo da linha” até junho continua sendo o mais favorável desde 2015, com exceção de 2022.
A recuperação das perdas do mês e o retorno a uma trajetória de valorização dependerá dos desdobramentos políticos, mas, da perspectiva do fechamento de julho, o dano causado pela ferocidade da polarização eleitoral parece contido.